Ana Botafogo na sala de casa, brincando de ser bailarina, com tutu feito por sua avó. Rio de Janeiro, 1960.
imagem: Ernani Fonseca | Acervo Ana Botafogo
Ana Botafogo na sala de casa, brincando de ser bailarina, com tutu feito por sua avó. Rio de Janeiro, 1960.
imagem: Ernani Fonseca | Acervo Ana Botafogo
Nascida no Rio de Janeiro, filha de Ernani e Maria Dulce, a bailarina Ana Botafogo teve contato com a dança desde muito cedo, por influência direta de sua mãe, que chegou a praticar balé, apesar de não ter seguido este caminho. Matriculada em um conservatório de música na Urca — que posteriormente incluiu aulas de balé em sua grade —, Ana transitou da música para a dança de maneira muito natural.
Aos 11 anos, ingressou na Academia de Ballet Leda Iuqui, escola de uma das mais renomadas bailarinas e professoras do Brasil, integrante da primeira geração da dança profissional do país. Nessa instituição, nossa homenageada encontrou uma realidade diferente: a brincadeira de antes tornou-se estudo e dedicação constante.
O apoio da família sempre foi marcante na vida de Ana, desde os primeiros passos no balé até os dias atuais, oferecendo o suporte necessário para que o sonho, a princípio inacessível, se tornasse realidade: apoiaram seus estudos, o que resultou em uma viagem sozinha para a França aos 19 anos; fizeram-se presentes em estreias de espetáculos durante toda a sua carreira; e zelaram pela organização de sua memória, preservando documentos e recortes de jornal. Esse acervo deu origem à biografia “Ana Botafogo: Palco e Vida”, publicada por seu pai em 2021.
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Ana Botafogo relembra o apoio de sua família ao longo da carreira, desde a ida para a França na juventude e a presença constante na plateia de seus espetáculos e palestras, até a organização feita por seu pai da memória de sua atuação, que resultou na biografia Ana Botafogo: Palco e Vida. Além disso, o bailarino e coreógrafo Marcelo Misailidis; o bailarino, professor e ensaiador Paulo Rodrigues; a mestre de balé, coreógrafa e professora Dalal Achcar; e a diretora e coreógrafa Dany Bittencourt recordam como os pais de Ana eram conhecidos por toda a companhia, devido ao suporte e à presença constante na trajetória da filha
Caderno de estudos religiosos de Ana Botafogo. Na página exibida, há um texto escrito por ela, no qual redige seu autorretrato, Rio de Janeiro, 1966 | Acervo Ana Botafogo
Confira abaixo a trancrição de seu conteúdo.
Dizer de mim fisicamente, é fácil:
Sou loira, olhos castanhos, nariz afilado e traços definidos.
Falar de minha pessoa é bem difícil. Preferia que os outros o fizessem.
Só posso dizer que sou calma e sensível, um pouco tímida e bastante cerimoniosa. Tenho gênio alegre, mas por vez ou outra me irrito quando as coisas não andam como quero.
Tenho gôsto artístico especialmente para o ballet.
No colégio sempre fui estudiosa.
Minha matéria preferida é geografia. Gosto principalmente quando se trata do espaço.
Já tenho planos para o futuro: estudar astronomia
Ana Botafogo em cena, dançando Chapeuzinho Vermelho, primeira vez em que utilizou sapatilhas de ponta. Academia de Ballet Leda Iuqui, Rio de Janeiro, 1967
Ana Botafogo no seu primeiro dia da faculdade de Letras, em celebração com a família, quando recebeu um buquê de flores dos pais. Rio de Janeiro, 1974.
imagem: autoria desconhecida | Acervo Ana Botafogo
Mesmo com o sonho de seguir carreira no balé, o objetivo parecia um percurso difícil. Em 1974, Ana Botafogo entra para a Faculdade de Letras, que cursou por um semestre antes de aceitar o convite de seu tio, diplomata que vivia na França, para estudar língua e literatura francesa em Paris. A possibilidade de um intercâmbio de poucos meses tornou-se o pretexto ideal para que Ana também buscasse o aperfeiçoamento no balé.
Em Paris, Ana viveu uma fase que mudaria sua vida. O que era programado para serem três meses de estudos transformou-se em uma trajetória profissional. Alguns meses após sua chegada, ela foi aprovada em uma audição para o Ballet National de Marseille – Roland Petit.
Em Marselha, Ana viveu um amadurecimento: pela primeira vez morando sozinha e longe da proteção familiar, ela deixou de ser a pequena aluna de sua academia no Rio para se tornar apenas mais uma jovem talentosa em um universo extremamente competitivo.
A transição para o profissionalismo, que ela imaginava ser um processo lento, ocorreu de forma surpreendente: longe de casa e da família, Ana teve a certeza de sua vocação.