Ana Botafogo no balé A morte do cisne (1905), apresentado no Teatro Odylo Costa Filho, no Rio de Janeiro, 1999
imagem: Bruno Veiga | Acervo Ana Botafogo
Ana Botafogo no balé A morte do cisne (1905), apresentado no Teatro Odylo Costa Filho, no Rio de Janeiro, 1999
imagem: Bruno Veiga | Acervo Ana Botafogo
Durante o período que Ana integrou o Ballet National de Marseille – Roland Petit, pode excursionar com a companhia se apresentando pela Europa. Na segunda metade da década de 1970, Ana Botafogo deixa a França rumo a Inglaterra, convidada por uma companhia inglesa de balé clássico. Infelizmente, devido a legislação britânica, não conseguiu um visto de trabalho. No entanto, aproveitou o período para estudar na capital inglesa e logo em seguida retorna ao Brasil.
Para sua surpresa, ao chegar no país, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, seu sonho profissional, estava fechado, mas Ana recebe um convite do Teatro Guaíra, em Curitiba e se muda para a capital paranaense. Na virada da década de 1970 para 1980, devido a uma mudança na direção da companhia de balé do Teatro Guaíra, Ana Botafogo se muda para o Rio de Janeiro e passa a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Seção de vídeo
Neste vídeo, nossa homenageada faz um panorama de sua carreira, desde os primeiros contatos com a dança na infância, na Academia de Ballet Leda Iuqui, sua viagem para a França, aos 19 anos, onde se profissionaliza no balé com a companhia Ballets de Marseille – Roland Petit, seu retorno ao Brasil, onde integra o Balé do Teatro Guaíra e seu ingresso no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde constrói uma carreira longa e profícua.
A dança me trouxe controle sobre minhas emoções, especialmente as emoções dos personagens, além da vontade de sempre me desafiar e a confiança pessoal. Trouxe também a alegria de ver que o trabalho não é em vão; de que, quando a gente se dedica e se empenha, os resultados vêm e, junto com eles, o reconhecimento.
Ana Botafogo em entrevista à equipe do Itaú Cultural
Seção de vídeo
Neste vídeo, Ana Botafogo fala de seu processo criativo como coreógrafa, diretora e bailarina, abordando as parcerias construídas em sua trajetória e a influência de outros artistas em suas criações. Além disso, o coreógrafo, bailarino e professor Luís Arrieta; a mestre de balé, coreógrafa e professora Dalal Achcar; a atriz e diretora Carla Camurati; e o bailarino, professor e ensaiador Paulo Rodrigues relembram a dedicação, a disciplina e o rigor de Ana na construção das personagens que interpreta.
Ana Botafogo nas escadarias do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 2025.
imagem: Cassandra Mello
Balés de repertório são obras clássicas consagradas, frequentemente interpretadas por diferentes companhias de dança, onde a narrativa é conduzida pela dança e música. Organizados em atos, suas coreografias seguem a criação clássica original, com ocasionais adaptações. Conheça abaixo algumas das sinopses dos balés de repertório que Ana Botafogo interpretou em sua carreira:
Onegin
Balé narrativo em três atos, criado por John Cranko, em 1965, para o Stuttgart Ballet; é inspirado na obra Eugene Onegin (1831), romance em versos de Alexander Pushkin. Acompanha a história de amor não correspondido entre a jovem Tatiana e o aristocrata Onegin, marcada por orgulho, rejeição e arrependimento ao longo de anos. Considerado um marco do balé dramático do século XX, Onegin destaca-se pela profundidade psicológica dos personagens e pela força expressiva da coreografia.
La fille mal gardée
Balé cômico com coreografia de Jean Dauberval e apresentado pela primeira vez em 1789. Narra a história de Lise, jovem determinada a viver seu amor por Colas apesar das tentativas de sua mãe de lhe impor um casamento por interesse. Ambientada em um contexto rural, a obra valoriza o humor, a leveza e os gestos do cotidiano. A estreia ocorreu em Bordeaux, na França, com música composta a partir de canções populares, posteriormente reorganizada por Ferdinand Hérold, em 1828.
O Quebra-Nozes
Balé em dois atos criado em 1892, inspirado no conto homônimo de E. T. A. Hoffmann. Acompanha a jornada fantástica da jovem Clara na noite de Natal, quando um simples brinquedo se transforma em um portal para um universo mágico. A coreografia original foi concebida por Marius Petipa e Lev Ivanov, com música de Piotr Ilitch Tchaikovsky; a estreia aconteceu no Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, na Rússia. O Quebra-Nozes consolidou-se como uma das obras mais populares do repertório clássico.
A megera domada
Balé narrativo criado em 1969 por John Cranko, baseado na comédia homônima de William Shakespeare, e que explora, com humor e intensidade dramática, a relação conflituosa entre Katherina e Petruchio. A música é de Domenico Scarlatti, com arranjos de Kurt-Heinz Stolze. A megera domada estreou com o Stuttgart Ballet, da Alemanha, destacando-se pela força teatral e pela construção psicológica dos personagens.
La sylphide
Criado em 1832 com coreografia de Filippo Taglioni e música de Jean-Madeleine Schneitzhoeffer, com estreia na Ópera de Paris, na França, é um dos marcos do balé romântico do século XIX. A obra narra o drama de James, um jovem seduzido por uma criatura etérea sílfide que o afasta do mundo real e de um amor possível, simbolizando o conflito entre o desejo idealizado e a vida concreta. A versão de August Bournonville, criada em 1836 para o Balé Real Dinamarquês, tornou-se a mais difundida internacionalmente.
Giselle
Balé romântico em dois atos, criado em 1841, com música de Adolphe Adam e coreografia de Jean Coralli e Jules Perrot; estreou na Ópera de Paris, na França. A obra narra a história da jovem camponesa Giselle, que morre de desgosto ao descobrir a traição de seu amado e retorna como um espírito etéreo, perdoando-o. Símbolo do romantismo no balé, a obra contrapõe o mundo terreno ao sobrenatural, explorando amor, traição e redenção.
Amazônica
Balé criado em 1975, fruto da fusão entre a música “A Floresta do Amazonas”, de Heitor Villa-Lobos, e a coreografia de Dalal Achcar, é reconhecido como o único balé clássico com música, coreografia e concepções brasileiras. A obra narra a história de um homem que está perdido na floresta e se apaixona por uma deusa indígena, desenvolvendo uma trama que articula romance e defesa da preservação ambiental.
A bela adormecida
Balé clássico em três atos, criado em 1890, com coreografia de Marius Petipa e música de Piotr Ilitch Tchaikovsky. Estreou no Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, na Rússia. Inspirada no conto homônimo de Charles Perrault, a obra narra a história da princesa Aurora, vítima de uma maldição que a condena a um sono profundo até que ela seja despertada pelo beijo do amor verdadeiro.
A morte do cisne
Solo criado em 1905 por Michel Fokine, com música de Camille Saint-Saëns, concebido para a bailarina Anna Pavlova. A coreografia representa os últimos instantes de vida de um cisne, traduzindo fragilidade, resistência e finitude. Tornou-se uma das obras de dança mais emblemáticas do século XX e símbolo da expressividade no balé.
Isadora
Balé criado em 1976 por John Neumeier para o Hamburg Ballet, de Hamburgo, na Alemanha e inspirado na vida e na obra de Isadora Duncan, figura central da dança moderna. Isadora constrói um retrato poético e biográfico de tal artista, explorando sua busca por liberdade estética, seus amores, suas perdas e seus ideais. A obra une a linguagem clássica à moderna, em uma narrativa de forte densidade emocional.
O corsário
Balé de repertório criado em 1856, inspirado no poema homônimo de Lord Byron. Tem coreografia original de Joseph Mazilier e música de Adolphe Adam; estreou na Ópera de Paris, na França. A trama acompanha as aventuras do pirata Conrad e seu amor por Medora, em um enredo marcado por exotismo, ação e virtuosismo técnico. A obra é conhecida por suas variações e grandes conjuntos.
Paquita
Balé criado em 1846, com coreografia de Joseph Mazilier e música de Édouard Deldevez, estreado na Ópera de Paris, na França. Ambientado na Espanha napoleônica, o balé narra a história de uma jovem cigana que descobre sua origem nobre. A obra é especialmente lembrada por seus divertissements, incorporados posteriormente por Marius Petipa; eles se tornaram peças fundamentais do repertório clássico.
Coppélia
Balé cômico em três atos, criado em 1870, com coreografia de Arthur Saint-Léon e música de Léo Delibes, estreado na Ópera de Paris, na França. Inspirada em um conto de E. T. A. Hoffmann, a obra gira em torno da boneca mecânica Coppélia e dos mal-entendidos amorosos que ela provoca. Com humor e vivacidade, o balé combina pantomima, técnica clássica e atmosfera lúdica.
Esmeralda
Balé criado em 1844, com coreografia de Jules Perrot e música de Cesare Pugni, inspirado no romance Notre-Dame de Paris (1831), de Victor Hugo, e estreado no Her Majesty’s Theatre, em Londres, no Reino Unido. A obra acompanha o destino trágico da jovem cigana Esmeralda, envolvida em uma trama de amores obsessivos, injustiça e perseguição. O balé destaca-se pela carga dramática e por variações clássicas de grande virtuosismo.
Pas de quatre cerrito
Obra criada em 1845 por Jules Perrot, especialmente concebida para reunir quatro das maiores bailarinas da era romântica: Marie Taglioni, Carlotta Grisi, Fanny Cerrito e Lucile Grahn, com música de Cesare Pugni. Estreado em Londres, Reino Unido, o balé não possui narrativa e estrutura-se como uma sucessão de variações que exaltam a técnica, o estilo e a personalidade de cada intérprete, tendo se tornado um marco histórico do balé do século XIX.
Dom Quixote
Balé clássico em três atos, criado em 1869, com coreografia de Marius Petipa e música de Ludwig Minkus, estreado no Teatro Bolshoi, em Moscou, na Rússia. Inspirado em episódios do romance homônimo de Miguel de Cervantes, a obra acompanha as aventuras amorosas de Kitri e Basílio, tendo Dom Quixote como figura poética e idealista. Dom Quixote é conhecido por sua energia, seu virtuosismo técnico e sua atmosfera festiva.
Suite en blanc
Balé neoclássico criado em 1943 por Serge Lifar, com música de Édouard Lalo, originalmente apresentado pela Ópera de Paris, na França. Sem narrativa, a obra é estruturada como uma sucessão de variações e conjuntos que evidenciam a pureza da técnica clássica, a precisão formal e a musicalidade. Com figurinos inteiramente brancos, o balé concentra-se exclusivamente no movimento e no rigor estético.
Sábia
Balé criado em 1968 por Antonio Carlos Cardoso, com música de Ernani Aguiar, concebido para o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Inspirada em elementos simbólicos da cultura brasileira, a obra articula o lirismo e força expressiva por meio de uma linguagem contemporânea, que dialoga com a tradição clássica. Sábia se destaca pela construção poética e pela valorização da identidade nacional.
Romeu e Julieta
Balé narrativo em três atos criado em 1938, com coreografia de Leonid Lavrovsky e música de Sergei Prokofiev, estreado pelo Kirov Ballet (atual Mariinsky Ballet), em Leningrado (atual São Peterburgo), na Rússia. Baseado na tragédia homônima de William Shakespeare, Romeu e Julieta retrata o amor impossível entre dois jovens de famílias rivais. A obra é reconhecida pela intensidade dramática e pela força emocional de sua partitura e de sua coreografia.
Cinderela
Balé em três atos criado em 1945, com coreografia de Rostislav Zakharov e música de Sergei Prokofiev, com estreia no Teatro Bolshoi, em Moscou, na Rússia. Inspirado no conto de fadas clássico de mesmo nome, o balé narra a trajetória de Cinderela, jovem submetida à opressão familiar e que encontra transformação e amor por meio da magia. A obra combina lirismo, humor e riqueza narrativa, tendo se consolidado no repertório clássico do século XX.
Seção de vídeo
Versátil e precisa, Ana Botafogo tem em sua carreira uma infinidade de balés de repertório e obras contemporâneas. Neste vídeo, a mestre de balé, coreógrafa e professora Dalal Achcar; a diretora e coreógrafa Dany Bittencourt; o bailarino, professor e coach Francisco Timbó; o bailarino e coreógrafo Marcelo Misailidis; o coreógrafo, bailarino e professor Luís Arrieta e o bailarino, professor e ensaiador Paulo Rodrigues falam sobre espetáculos marcantes de Ana Botafogo, como as montagens pop de Romeu e Julieta e Cinderela; o espetáculo Ulda, e os balés Giselle, Lago dos Cisnes e Onegin, entre outros.
Ana Botagofo nos bastidores do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1995
imagem: Bruno Veiga