por Ingrid Dittrich Wiggers
Anísio Teixeira foi um intelectual que se destacou no cenário brasileiro do século XX, no qual atuou como pioneiro da educação integral. Seu trabalho foi marcado pelo reformismo educacional e pela inovação pedagógica, bem como pelo compromisso com a educação pública, gratuita e laica, que ele considerava ser uma condição para a democracia.
A Escola-Parque representa um símbolo da educação idealizada e implementada por Anísio nas cidades onde atuou como liderança da gestão educacional pública. Já na década de 1930, no Rio de Janeiro (RJ), implantou um programa inovador composto de diversos tipos de escola, entre eles o chamado Playground, que, frequentado pelas crianças no contraturno, proporcionava uma educação integral.
O Playground, por sua vez, evoluiu para a denominada Escola Parque, inaugurada em Salvador (BA) em 1950 e, posteriormente, em 1960, na nova capital do país, Brasília. Para cada conjunto de quatro Escolas-Classe – onde se realiza a educação intelectual sistemática, ou seja, o ensino das disciplinas conforme o currículo tradicional – circunvizinhas, foi planejada uma Escola-Parque, com a finalidade de promover o desenvolvimento artístico, físico, recreativo e social do estudante, bem como sua iniciação para o trabalho. O Playground, assim como a Escola-Parque, representa um complemento à Escola-Classe.
Com efeito, ao analisarmos os documentos referentes ao currículo escolar, bem como o acervo fotográfico da primeira Escola-Parque inaugurada em Brasília, localizada na Entrequadra 307/308 Sul, identificamos brincadeiras, aulas de natação, competições esportivas, desfiles cívicos e, ainda, aulas de educação física propriamente ditas. Além das atividades recreativas e esportivas, observamos atividades de caráter artístico, como aulas de dança, teatro, música, artes visuais e trabalhos manuais. Isso é possível porque o espaço arquitetônico da Escola-Parque foi desenhado privilegiando áreas e equipamentos para recreação, prática de esportes e artes. Essas atividades se caracterizam pela valorização da educação do corpo, o que sugere a aderência do currículo ao projeto de renovação pedagógica, mas sobretudo à filosofia pragmatista educacional1.
A educação do corpo, embora não fosse mencionada por Anísio de maneira explícita, tem um sentido pedagógico, inscrito na filosofia pragmatista, que embasa sua formação e atuação como intelectual no cenário educacional. De acordo com esse pensamento, a educação deve ser orientada pela experiência, o que privilegia a interação entre a criança e os elementos que compõem seu ambiente, entre eles a escola, provocando uma constante transformação por meio da aprendizagem. A experiência, portanto, não se refere apenas ao âmbito pessoal e particular, mas diz respeito à experiência humana de modo geral. O ser humano pode recorrer à experiência como instrumento que oferece suporte e subsídio às novas situações que vive a cada momento, no contexto histórico e social. O corpo, por sua vez, é a dimensão orgânica mediadora da experiência infantil, propiciando o desenvolvimento dessa pedagogia. A proposta do educador, nesse sentido, não se circunscreve a uma crítica didática à escola tradicional, mas, sim, se caracteriza como uma crítica filosófica.
Considerando que Anísio implantou uma série de escolas experimentais orientadas pela filosofia pragmatista, para além de ideias, ele marcou a educação com políticas e gestos de relevância histórica. Embora muitos projetos tenham sofrido rupturas, alguns permanecem ativos até os dias de hoje, mesmo que tenham sido marcados pela passagem do tempo. Na trama urbana de Brasília, ao percorrer os entremeios das quadras residenciais do Plano Piloto, pode-se sentir a agitação infantil que habita os amplos espaços que as Escolas-Parque oferecem para crianças e adolescentes. Sobretudo, a Escola-Parque é testemunha ainda pouco ouvida da experiência como mediação do processo de ensino-aprendizagem.
Observando a Escola-Parque como experiência acumulada pela história da educação brasileira, no sentido de buscar um elo de articulação entre gerações, devemos nos perguntar: quais sentidos/significados relevantes ela poderia nos oferecer no atual contexto social? Parece claro que o currículo estruturado em torno de atividades corporais e artísticas pode ser interessante como alternativa às telas, buscando evitar ou pelo menos minimizar os seus efeitos sobre uma frágil educação do corpo a que a infância se vê submetida. Em relação à receptividade das crianças, diferentemente do que prega o senso comum, podemos ter boas expectativas. Em uma pesquisa recente desenvolvida com crianças de Brasília, a maioria delas apontou, entre suas brincadeiras preferidas, as tradicionais e as esportivas, sugerindo que a atração pelas mídias ainda não é hegemônica2.
Contudo, a referência da educação integral, estruturada no par “Escola-Classe e Escola-Parque”, poderia vir a ter um alcance político mais profundo na educação de crianças. Trata-se de assegurar, na rede pública de ensino, educação integral de qualidade, por meio da qual a escola seria uma mediadora da relação dinâmica entre indivíduo e sociedade, integrando-se como mecanismo de transformação social. Em decorrência, teremos uma educação dirigida à formação para a cidadania, por intermédio de uma aprendizagem adquirida de modo direto, como nas experiências sociais.
Notas
- WIGGERS, Ingrid Dittrich. Memórias da Escola-Parque de Brasília. Brasília, DF: UnB, 2023.
- WIGGERS, Ingrid Dittrich; OLIVEIRA, Mariana da Silva; FERREIRA, Ivan Vilela. Infância e educação do corpo: as mídias diante das brincadeiras tradicionais. Em Aberto, Brasília, DF, v. 31, n. 102, p. 177-190, maio-ago. 2018.
Ingrid Dittrich Wiggers é doutora em educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desde 2007, atua como professora na Universidade de Brasília (UnB), na graduação e na pós-graduação em educação física. Coordena o Imagem – Grupo de Pesquisa sobre Infância, Corpo e Educação. Além disso, desenvolve pesquisa sobre a história do sistema escolar público na capital do país, tendo publicado artigos e capítulos de livros, com destaque para a obra Memórias da Escola-Parque de Brasília (Editora UnB, 2023). É consultora da Ocupação Anísio Teixeira.