Espaço resgatou algumas das muitas obras de Ruth e percorreu uma parte de sua jornada
por Gabriel Lopes
A Ocupação Ruth Rocha e a Fundação Itaú estiveram na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026. O projeto, que homenageou a autora de livros infantojuvenis e esteve em cartaz no Itaú Cultural (IC) de 9 de maio a 2 de agosto, marcou presença também no maior evento literário e cultural da América Latina, que aconteceu entre os dias 4 e 13 de setembro.
Essa foi uma oportunidade para quem não tinha conseguido visitar a Ocupação Ruth Rocha no IC – ou desejava relembrar a experiência – de conferir um recorte da aclamada escritora no estande da Fundação Itaú na Bienal. Autora de grandes obras como Marcelo, Marmelo, Martelo; Bom dia, todas as cores!; O Reizinho mandão e muitas outras, Ruth fez, e ainda faz, parte da vida de milhares de brasileiros, principalmente nos anos iniciais nas escolas.
Sandra, que é professora do Ensino Básico e visitou a mostra, contou ao IC que Ruth, inclusive, se tornou para ela “uma autora de cabeceira”. Junto a Sandra, estavam Vania, Iris, Marcela, Tais, Jéssica e Poliana, também professoras e fãs da obra da escritora. “Espaços como esse são muito, muito importantes, porque nessas feiras há muitas crianças, e as atrações precisam ser bem interativas, até para incentivar mais as crianças a lerem”, comentou Vania.
Ainda em relação ao âmbito da educação, cabe lembrar que Ruth teve suas obras integradas às diretrizes do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), consolidando não só o caráter de leitura indispensável desses livros na educação infantil brasileira, como também o legado deles para a formação de gerações inteiras de leitores.
Nas escolas, as obras de Ruth alcançam também crianças com as mais diversas necessidades e particularidades, auxiliando em seu desenvolvimento. Um exemplo é o caso de João Bernardo Alves Barbosa, um jovem de 20 anos, de Montes Claros (MG), que cresceu ouvindo as histórias de Ruth. Segundo o relato da mãe de João, a psicóloga Glaucilene Alves, a admiração dele pela autora começou aos 6 anos, nos primeiros anos escolares.
João foi diagnosticado com autismo aos 4 anos. De acordo com Glaucilene, ele era uma criança muito agitada e ansiosa, que, por conta disso, tinha dificuldade para acompanhar a turma nas atividades propostas. Assim, as atividades pedagógicas que João fazia eram adaptadas à sua condição emocional, e os livros foram a forma que os professores encontraram de fazê-lo engajar-se nas tarefas escolares. Com o tempo, João começou a escolher os livros que ele queria ler – apesar de ainda não saber decifrar letras e palavras, ele lia as imagens e, dessa forma, conseguia compreender as histórias e com elas se divertir. Quando João percebeu que todas as narrativas de que gostava eram de Ruth, ele passou a escolher os livros não pela capa ou título, mas pela autoria. “Era tão interessante. Ele procurava o livro olhando a contracapa em busca do nome da Ruth, e logo decorou a grafia”, contou Glaucilene.
O amor de João pelas obras de Ruth, inclusive, não se limitou a elas: conforme lia os livros, ele desenvolveu também curiosidade sobre a vida da escritora. “Certa vez, fiz uma pesquisa biográfica sobre Ruth a pedido de João, e ele ficou admirado ao saber que ela era adulta, casada e tinha uma filha”, comentou a mãe.
Como psicóloga e, principalmente, como mãe, Glaucilene entende a importância que as obras da autora tiveram naquele período da vida de João. “Foi uma fase importante para ele. A nova escola era um grande desafio, e tenho certeza de que encontrar motivação nos livros de Ruth marcou muito sua infância”, concluiu.
Ruth Rocha revolucionou o cenário da literatura infantojuvenil ao abandonar o tom moralista tradicional, dando voz à autonomia, à curiosidade e ao senso crítico infantis, colocando a criança como protagonista de sua própria história. Para além de ser aclamada no Brasil, a autora foi também reconhecida internacionalmente, tendo suas obras sido traduzidas para mais de 25 idiomas. Com mais de 200 livros publicados e 40 milhões de exemplares vendidos, ela se consolida, incontestavelmente, como um dos pilares mais fundamentais da literatura infantil brasileira.
Gabriel Lopes é estudante de jornalismo na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (FAPCOM). No Itaú Cultural (IC), atua como estagiário na área de Criação e Plataforma desde 2025, tendo participado de diferentes projetos da instituição, como a Ocupação Ruth Rocha e Ocupação Anísio Teixeira.