“Ainda acho que não estou definitiva”
(Helena Ignez)
Helena Ignez, sempre inventiva, nunca se acomodou às imagens criadas sobre si. Ao longo de mais de 60 anos de carreira no teatro e no cinema, a atriz, diretora e roteirista teve papel fundamental em alguns dos momentos e movimentos mais radicais e transformadores da cultura e da arte brasileira, como o Cinema Novo e o Cinema de Invenção. Sua experiência nos palcos reflete-se profundamente nas telas, especialmente na relação da fisicalidade do corpo com a cena e no modo como ela conduz suas personagens, ultrapassando o campo da simples interpretação para participar ativamente de sua construção.
Nascida em Salvador, na Bahia, Helena iniciou sua trajetória num momento de intensa renovação cultural no Brasil. Fez parte da primeira turma da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), criada em 1956 e consagrada como um dos maiores polos de formação cênica do país, sob a direção de Martim Gonçalves. Foi nesse fértil contexto universitário que ela conheceu o cineasta Glauber Rocha, com quem se casaria e compartilharia seu primeiro trabalho no cinema, o curta-metragem Pátio (1959). Dois anos depois, participaria de A grande feira, de Roberto Pires, um dos marcos do cinema moderno brasileiro, antes de se mudar para o Rio de Janeiro para atuar em companhias de teatro ao lado de nomes como Zbigniew Ziembinski e Odete Lara.
Sua trajetória é marcada pela coragem de romper com as expectativas de sua época. Na década de 1960, após o sucesso em produções como Assalto ao trem pagador (1962) e O padre e a moça (1966), Helena encontrou espaço para a liberdade total na Belair Filmes, fundada em 1970 com Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. Esse espírito de transgressão já pulsava em obras como A mulher de todos (1969), um verdadeiro ensaio de radicalidade estética que antecipava o que viria a ser a marca da produtora. Em um curtíssimo e prolífico período em 1970, a Belair produziu seis longas-metragens emblemáticos, marcados pela experimentação e pelo forte discurso crítico, interrompidos pela censura do regime militar.
Trinta e cinco anos depois, Helena revisitaria esse legado ao dirigir A miss e o dinossauro – bastidores da Belair (2005). Sua transição definitiva para a direção cinematográfica havia começado pouco antes, na virada do século XXI, com o curta Reinvenção da rua (2003). Desde então, mantendo intacta a vontade de arriscar, ela levou às telas obras inovadoras, como Canção de Baal (2008), Ralé (2015) e Fakir (2019), provando que continua sendo uma artista essencialmente inventiva e experimental.
É com essa potência criadora que o programa Ocupação Itaú Cultural, em sua 74ª edição, sobrevoa o percurso de Helena Ignez, desvendando os caminhos de uma artista que continua em movimento. Por meio de fotografias, documentos e trechos de filmes, a mostra apresenta toda a multiplicidade artística de nossa “antimusa”, abrindo as cortinas para que ela própria nos guie por sua história e seus desejos criativos para o futuro.
Além da exposição e deste site, a Ocupação Helena Ignez conta com uma publicação digital, disponível em itaucultural.org.br/ocupacao, reunindo conteúdos que ampliam estas páginas.
Itaú Cultural