Salomé
Helena Ignez e Paulo Gracindo em cena da peça Salomé (1968)
imagem: autoria desconhecida | Acervo O Globo
Maria, Mariana, Janete Jane, Ângela Carne e Osso, Titus. Um universo de mulheres reunido na obra de uma mesma atriz. Desde o primeiro papel nas telas, em Pátio (1959), de Glauber Rocha, Helena Ignez construiu uma maneira própria de atuar. Ao longo de quase sete décadas, deu vida a personagens que vão da delicadeza de Maria à irreverência de Ângela Carne e Osso, da força de Janete Jane à liberdade das personagens da Belair. Como observa Jean-Claude Bernardet, Helena não é uma atriz que entra no personagem, mas uma atriz criadora, em que parte da dramaturgia também nasce de sua atuação.
Esta sessão foi intitulada com base no conceito elaborado por Pedro Guimarães e Sandro de Oliveira, que dá nome à obra Helena Ignez – Atriz Experimental (Edições Sesc, 2021).
Seção de vídeo
Neste vídeo, Helena Ignez relembra o início de sua carreira e o processo de autoconhecimento que moldou sua entrega à arte. Entre trechos de filmes como “O padre e a moça” (1966), “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) e “A família do barulho” (1970) e de trabalhos recentes, como “Antes do fim” (2017), os cineastas André Guerreiro Lopes, Cristiano Burlan e Julio Bressane e o crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet falam sobre o domínio físico, a presença magnética de Helena e a forma singular como ela constrói sua atuação.
Helena Ignez e Paulo Gracindo em cena da peça Salomé (1968)
imagem: autoria desconhecida | Acervo O Globo
Helena Ignez na peça Tchekhov é um Cogumelo, 2018
imagem: André Guerreiro Lopes | Acervo Estúdio Lusco-Fusco
Helena Ignez não é apenas uma boa atriz. Eu acredito que ela é única na história do cinema brasileiro, porque, como atriz criativa ou criadora, uma parte da dramaturgia é dela e não apenas o personagem.
Jean-Claude Bernardet para o Itaú Cultural
Helena Ignez em Um Sonho, peça de André Guerreiro Lopes, 2007
imagem: Lenise Pinheiro
Helena Ignez e Djin Sganzerla contracenando na peça Savannah Bay, 2001
fotografia: autoria desconhecida | Acervo Mercúrio Produções
Cartaz do filme A grande feira, dirigido por Roberto Pires, 1961.
Acervo Cinemateca Brasileira
A grande feira foi o primeiro longa-metragem de Helena Ignez enquanto atriz, ainda em Salvador. Sua estréia tinha ocorrido dois anos antes com o curta-metragem Pátio, de Glauber Rocha.
Ambientado em Salvador (BA), o filme retrata os dramas sociais e pessoais que se desenrolam em um grande mercado popular. Feirantes, prostitutas, marginais e mulheres da alta sociedade enfrentam conflitos e situações de risco, incluindo a ameaça de explosão de depósitos de gasolina, compondo um painel de comportamentos humanos e tensões sociais.
Helena Ignez como Ely em A grande feira, 1961
Acervo Cinemateca Brasileira
Ela estuda a musicalidade do texto. Sabe uma pessoa que tem um prazer pelo domínio? Ela vai lá e estuda a palavra, mas não a palavra como significado e significância, mas como poder encantatório mesmo.
Cristiano Burlan para o Itaú Cultural
Cartaz do filme O Padre e a Moça, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, 1966.
Acervo Cinemateca Brasileira
Inspirado no poema de Carlos Drummond de Andrade, O Padre e a Moça narra a história do amor de um jovem padre e uma bela moça em uma pequena cidade conservadora do interior. Com a morte do velho padre e a chegada de um jovem substituto, a cidade sai do seu ritmo, rearranjando a ordem habitual. Com esse filme, Helena conquistou o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília pelo papel de Mariana.
Cartaz do filme O grito da Terra, dirigido por Olney São Paulo, 1964
Adaptado do romance homônimo de Ciro de Carvalho Leite, O grito da Terra narra a história de Lóli, jovem que vive no sertão, mas que busca, a qualquer custo, sair do campo e mudar-se para a cidade, e Mariá, sua amiga e cunhada, que tem esperança de que é possível sobreviver no campo e que as condições de vida podem melhorar.
1/10
Helena Ignez como Janete Jane, em O bandido da luz vermelha (1968). É a primeira aparição de Helena Ignez num filme de Rogério Sganzerla, que virá a ser seu parceiro de trabalho e de vida.
Acervo Cinemateca Brasileira
Após o impacto do filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), sua primeira parceria com Rogério Sganzerla, Helena Ignez atuou em A mulher de todos (1969), descrito pelo diretor como uma “aventura pornográfica”. No papel da mítica Ângela Carne e Osso, “a ultrapoderosa inimiga número um dos homens”, ela encarna uma mulher livre, atraente, indecorosa e divertida, que se entrega aos prazeres do amor livre enquanto enlouquece todos ao seu redor. Casada com o magnata Doktor Plirtz, interpretado por Jô Soares, Ângela desafia convenções morais e sexuais ao longo do filme. A personagem, uma das mais marcantes da carreira da artista, tornou-se um ícone feminista e inspiração para antigas e novas gerações. Entre fascínio, incompreensão, desconcerto e repúdio, a performance de Helena Ignez dividiu a crítica da época, mas se consolidou como um marco na história da atuação no cinema brasileiro.